PGMM

Marketing Estratégico

Toda a matéria desta disciplina numa página, pela ordem em que foi dada. São 1 aula e cerca de 20 minutos de leitura. Escrita por mim a partir dos slides, dos casos e dos textos de apoio que o professor deu.

Aula 1 · 26 de Setembro de 2026

O marketing nas organizações · Segmentação e targeting

O que é marketing, e para que serve

Marketing é vender ideias para criar valor. Não é a função que comunica o que já foi decidido: é a que decide o que se vai oferecer, a quem, e porquê.

A aula abriu com quatro definições de marketing, nos slides O Marketing nas Organizações, de fontes diferentes e escritas em vinte anos: 2004, 2014, 2020, e a da Associação Americana de Marketing na versão em vigor. O exercício não era escolher a melhor: era reparar no que todas têm em comum.

Kotler, em 2014, fala em explorar, criar e entregar valor para satisfazer as necessidades de um mercado-alvo, com lucro. A American Marketing Association descreve a actividade e os processos de criar, comunicar, entregar e trocar ofertas com valor para clientes, parceiros e para a sociedade. Lee, em 2020, acrescenta a influência sobre comportamentos que beneficiem a sociedade e não só o indivíduo. Lindon e os seus co-autores, em 2004, põem o acento nos meios de que a organização dispõe para provocar, nos públicos que lhe interessam, comportamentos favoráveis aos seus objectivos.

Três elementos atravessam as quatro:

  • Valor. Nenhuma fala de vender. Todas falam de criar e entregar algo que vale para alguém.
  • Um público escolhido. Mercado-alvo, audiência, públicos de interesse. O marketing nunca se dirige a toda a gente.
  • Comportamento. O objectivo final é que alguém faça alguma coisa: comprar, aderir, mudar de hábito, doar.

O que muda entre as quatro

Vale a pena reparar em duas diferenças, porque não são de estilo.

A definição de Kotler tem “com lucro” lá dentro; a da AMA não tem. Isso não é descuido: a da AMA foi escrita para abranger organizações que fazem marketing sem fins lucrativos, e é por isso que é a definição oficial da disciplina em muitos sítios. A diferença regressa no bloco seguinte, quando a aula chega aos cinco tipos de valor.

A definição de Lindon é a mais antiga e a mais fria: fala em provocar comportamentos favoráveis aos objectivos da organização. As outras três falam em valor para o cliente. Esta diferença resume cinquenta anos de discussão sobre para que lado é que o marketing olha, e ainda hoje se vê em qualquer empresa: há departamentos de marketing que existem para perceber o cliente, e outros que existem para escoar o que a fábrica já produziu.

O erro que convém não fazer

A confusão mais comum, e que aparece em trabalhos de alunos todos os anos, é tratar marketing como sinónimo de comunicação ou publicidade. A comunicação é uma das quatro variáveis do marketing mix, e vem tarde na sequência: primeiro decide- se a quem se vai, o que se oferece e a que preço, e só depois o que se diz.

Se o marketing fosse só comunicação, a única resposta possível a um produto que não vende seria fazer mais anúncios. Como não é, as outras respostas ficam disponíveis: mudar o produto, mudar o alvo, mudar o preço, mudar o canal.

Para que serve

A síntese que o professor deu à pergunta para que serve o marketing foi curta: vender ideias. E depois desdobrou-a: vender ideias é criar valor.

A formulação é boa por uma razão que não é evidente à primeira. “Vender ideias” resolve o problema de o marketing parecer só uma coisa de empresas que vendem produtos. Uma escola vende a ideia de que vale a pena estudar ali. Uma associação ambiental vende a ideia de que vale a pena mudar de hábito. Um partido vende a ideia de um programa. Em todos os casos há um público, uma proposta, uma comunicação e um comportamento esperado — que é a estrutura das quatro definições.

É esta frase que sustenta o resto da disciplina. Se marketing é criar valor, então segmentar serve para saber para quem, posicionar serve para decidir que valor se promete, e o marketing mix serve para o entregar.

O valor não é só económico

Cinco tipos de valor: económico, social, cultural, educativo e ambiental. E valor é sempre uma conta que o cliente faz entre o que recebe e tudo o que lhe custa, não só o preço.

Definido o marketing como criação de valor, ficava uma pergunta em aberto: valor para quem, e de que tipo. Os slides O Marketing nas Organizações respondem com cinco tipos, cada um ilustrado com uma organização concreta.

Económico. O mais óbvio, e o que a definição de Kotler menciona ao falar em lucro. Uma empresa de telecomunicações a vender pacotes de serviços cria valor económico, para si e para quem compra.

Social. O exemplo dado foi o Banco Alimentar Contra a Fome. Uma organização sem fins lucrativos faz marketing da mesma forma: tem públicos, tem uma proposta, comunica, e precisa que as pessoas ajam. O que muda é a moeda em que o valor se mede.

Cultural. Serralves. Uma instituição cultural usa as mesmas ferramentas para levar pessoas a um museu que uma marca usa para as levar a uma loja.

Educativo. A própria Porto Business School. Uma pós-graduação é uma oferta, com um público-alvo, uma proposta de valor e uma comunicação.

Ambiental. O valor criado quando a actividade reduz impacto ou promove práticas sustentáveis.

O que é valor, afinal

A lista dos cinco tipos responde a “valor de que espécie”, mas deixa por responder o que é o valor em si. E aqui há uma ideia simples que serve o curso inteiro: valor é a diferença entre o que o cliente recebe e tudo o que lhe custa.

Do lado do que recebe entram o produto, o serviço, a confiança na marca, o que aquilo lhe permite fazer e o que aquilo diz sobre ele aos outros. Do lado do que custa entra o preço, mas também o tempo, o esforço, o risco de se enganar e o incómodo de mudar.

Três consequências práticas saem daqui, e todas aparecem mais à frente na disciplina:

  • Aumentar valor não é só baixar o preço. Tirar esforço ao cliente aumenta o valor tanto como descer o preço, e sai mais barato à empresa. É por isso que a entrega ao domicílio, a devolução fácil e a compra num clique valem dinheiro.
  • O valor é percebido, não medido. Duas pessoas fazem contas diferentes ao mesmo produto. É por isso que a segmentação existe.
  • O custo de mudar conta como custo. Um cliente que já tem uma máquina de café de cápsulas tem um custo para mudar de marca que não é o preço do café. Isto volta no caso Nespresso da sessão 2.

Porque é que os cinco tipos não são um adorno

O alargamento a cinco tipos de valor tem uma consequência directa na disciplina: a Ficha de disciplina tem um tema ESG associado a cada sessão. Na sessão 1 o tema é exactamente este, o marketing ao serviço da criação de valor económico, social e ambiental. Nas seguintes são marcas com propósito, produtos e comunicação verde, e distribuição sustentável.

Para o trabalho de grupo, isto é uma pista concreta. Um caso que ilustre criação de valor não económico é tão válido como um caso comercial, e distingue-se mais num conjunto de apresentações onde toda a gente escolheu uma marca conhecida. Vale a pena ter presente que um dos três critérios de avaliação é a criatividade, e que a escolha do caso é a primeira oportunidade de a mostrar.

Como se cria valor: sete passos e quatro variáveis

Três passos de estratégia e quatro de execução. Os quatro últimos são os quatro P, e a regra que os governa é a coerência: mexer num obriga a rever os outros.

A parte mais útil da primeira aula, para efeitos de organizar a cabeça, foi a sequência de sete passos dos slides O Marketing nas Organizações que responde à pergunta como se vende e como se cria valor.

  1. Entender o mercado.
  2. Escolher os alvos.
  3. Desenvolver uma proposta de valor única e atractiva.
  4. Oferecer soluções dirigidas às necessidades e expectativas dos clientes.
  5. Comunicar e promover aquilo que se vende.
  6. Tornar as soluções disponíveis.
  7. Definir um preço.

A lista é o programa disfarçado

Repara na divisão, porque não é arbitrária.

Os três primeiros são decisões de estratégia: perceber o mercado, escolher a quem nos dirigimos, e decidir que valor prometemos. É o ponto 2 do programa na Ficha de disciplina: segmentação, targeting, posicionamento e branding. Ocupam as sessões 1 e 2.

Os quatro últimos são execução, e são exactamente os quatro P do marketing mix: a solução é o produto, comunicar é a comunicação, tornar disponível é a distribuição, e o último é o preço. É o ponto 3 do programa, e ocupa as sessões 3 e 4.

A disciplina fecha no ponto 4, o plano de marketing, que é o documento onde estas sete decisões ficam escritas e articuladas umas com as outras.

Porquê nesta ordem

A ordem tem uma lógica que convém perceber, porque é ela que separa marketing de improviso.

Cada passo restringe o seguinte. Quando escolhes o alvo, fechas parte das opções de produto. Quando defines a proposta de valor, fechas parte das opções de preço, porque uma promessa de qualidade superior não sobrevive a um preço de saldo. Quando escolhes o canal, condicionas a comunicação, porque não se fala da mesma maneira em prateleira de supermercado e em loja própria.

Fazer ao contrário — desenhar o produto primeiro e procurar depois a quem o vender — é o modo de falhar mais comum, e tem nome: orientação para o produto em vez de orientação para o mercado. Funciona quando há mais procura do que oferta, e deixa de funcionar assim que aparece concorrência.

O jogo do marketing

O professor fechou esta parte com um slide chamado The Marketing Game, nos mesmos slides, com as quatro variáveis lado a lado. A palavra jogo é apropriada e merece ser lida à letra: são quatro alavancas que se movem em conjunto.

A regra que governa o mix é a coerência. Cada variável tem de dizer a mesma coisa sobre a oferta, senão o cliente recebe sinais contraditórios e não acredita em nenhum. Um produto premium, vendido em loja própria, com comunicação sóbria e preço alto, é coerente. O mesmo produto com preço de promoção permanente deixa de o ser, e o que o cliente conclui não é que está a fazer um bom negócio: é que o produto afinal não era premium.

Daí a consequência prática: mexer numa variável obriga a rever as outras três. Baixar o preço sem mexer na distribuição nem na comunicação raramente produz o efeito esperado, e às vezes produz o contrário.

Duas críticas aos quatro P que convém conhecer

Os quatro P são de 1960 e continuam de pé, mas levaram duas críticas que já fazem parte da matéria corrente e que dão vantagem numa apresentação.

A primeira é que não chegam para serviços. Num serviço, quem o presta, o sítio onde é prestado e o processo pelo qual passa fazem parte da oferta tanto como o produto. Daí a extensão para sete P, com pessoas, processos e evidência física. Interessa directamente ao curso: Marketing de Serviços é disciplina do terceiro trimestre.

A segunda é que estão escritos do lado da empresa. Produto, preço, distribuição e comunicação são o que a empresa faz. Vistos do lado do cliente, os mesmos quatro pontos são: a solução que ele procura, o custo total que ele suporta, a conveniência com que lhe chega, e a conversa que tem com a marca. Não é uma reformulação cosmética: obriga a perguntar o que o cliente quer em vez de que variáveis a empresa controla, e é essa mudança de ponto de vista que a disciplina anda a pedir desde o primeiro slide.

Segmentação: o que é e como se faz

Segmentar é dividir o mercado em grupos que justifiquem estratégias diferentes. A divisão só presta se o segmento for mensurável, grande que chegue, alcançável, distinto dos outros, e accionável com os meios que se tem.

A segunda metade da aula entrou nos dois primeiros passos da sequência: entender o mercado e escolher os alvos.

O problema

O ponto de partida dos slides Desenvolvimento da Estratégia de Marketing foi uma imagem de multidão com duas palavras por cima: clientes muitos e diversos. Daí saem três dificuldades, e a segmentação responde às três: perceber os clientes, identificar quais interessam mesmo, e servi-los bem.

Sem segmentar, só há duas saídas e ambas são más. Tratar o mercado como um bloco e fazer uma oferta média que não serve ninguém em particular. Ou tratar cada cliente como caso único, o que não escala. Segmentar é o meio-termo: agrupar quem se parece o suficiente para ser servido da mesma maneira.

A imagem usada foi a laranja aos gomos. Vale a pena reparar no que essa imagem implica, porque é uma escolha de posição: sugere que os segmentos já existem no mercado e o trabalho é descobri-los. Há outra escola que diz o contrário, que os segmentos são construídos por quem analisa, e que dois analistas competentes podem dividir o mesmo mercado de maneiras diferentes e ambas serem úteis. Na prática a segunda é mais honesta: a segmentação é uma decisão, não um achado.

A definição

Nos slides da segunda parte da aula, em inglês: dividing a market into distinct groups of buyers with different characteristics, needs or behaviours, and who might require distinct marketing strategies.

Três coisas a reter, e nenhuma é acessória:

  • Grupos distintos. Se dois segmentos se comportam da mesma maneira, não são dois segmentos, são um.
  • Características, necessidades ou comportamentos. Quem são, do que precisam, ou como agem. Três eixos diferentes, e o terceiro costuma ser o mais útil.
  • Que possam exigir estratégias distintas. É esta a parte que decide se a segmentação presta. Um grupo só é segmento se justificar tratamento diferente. Se a estratégia acaba igual, dividir não serviu de nada.

As quatro famílias de variáveis

A aula organiza-as em dois pares, e a ordem não é inocente: as primeiras são fáceis de medir, as últimas explicam o comportamento.

Geográficas e demográficas

Região, país, dimensão da cidade. Idade, sexo, rendimento, profissão. São as mais usadas porque os dados existem, são baratos e em Portugal estão quase todos disponíveis no INE sem pagar nada.

O exemplo geográfico desses slides foi o mapa de Portugal por NUTS. O demográfico foi o Dove, com uma gama feminina e a linha Men+Care, com embalagem, tom e comunicação diferentes.

O problema destas variáveis é conhecido e vale a pena percebê-lo bem, porque é o erro mais comum em trabalhos de marketing: descrevem quem é o cliente e não explicam o que ele quer. Duas pessoas com a mesma idade, o mesmo rendimento e a mesma morada podem comprar por razões opostas. Um homem de 40 anos no Porto pode comprar um carro para levar os filhos à escola ou para conduzir ao fim de semana, e essas duas pessoas não se servem da mesma maneira, por muito que caiam na mesma célula da tabela.

A razão pela qual continuam a dominar não é técnica, é prática: são as únicas variáveis que os meios de comunicação conseguem comprar. A uma plataforma de anúncios pede-se “homens, 35 a 44, área metropolitana do Porto”. Não se pede “pessoas que compram por insegurança”.

Comportamentais e psicográficas

Razões de compra, lealdade à marca, frequência. Personalidade e estilo de vida. São mais difíceis de obter, e é por isso que valem mais: é aqui que está a razão da compra.

O exemplo foi o turismo segmentado por tipo de viagem, num quadro que o slide credita ao SlideTeam, com categorias como viagem em família, turista individual, grupos, turismo de negócios, viagens de incentivo e turismo de saúde. Nenhuma delas é uma idade ou um rendimento: são motivos para viajar. E é por isso que funcionam melhor — um hotel que sabe que recebe turismo de negócios sabe o que fazer com essa informação. Um hotel que sabe que recebe pessoas dos 30 aos 50 não sabe nada.

A segmentação por benefício procurado é um caso particular desta família e é provavelmente a mais útil de todas: em vez de perguntar quem é o cliente, pergunta o que é que ele anda a tentar resolver. Na pasta de dentes, há quem compre por causa das cáries, quem compre por causa do branqueamento e quem compre pelo sabor, e essas três pessoas podem ter exactamente o mesmo perfil demográfico. Três benefícios, três segmentos, três comunicações.

O que torna uma segmentação utilizável

Esta é a parte que os slides não desenvolvem e que faz falta assim que o trabalho de grupo começar. Dividir um mercado é fácil; dividi-lo de maneira útil não é.

O texto de apoio Identifying Market Segments and Targets trata disto e é taxativo: nem todos os esquemas de segmentação servem. O exemplo que usa é o sal de cozinha dividido entre clientes louros e morenos — a divisão é perfeitamente possível e não serve rigorosamente para nada, porque a cor do cabelo não tem relação nenhuma com comprar sal. E acrescenta o caso em que todos compram a mesma quantidade, acreditam que todo o sal é igual e querem pagar o mesmo preço: aí a empresa não ganha nada em segmentar.

Daí a regra, e são cinco os testes a passar:

Mensurável. Sabe-se quantos são e quanto valem? Sem estimativa do tamanho não há investimento que se justifique a ninguém.

Substancial. É grande que chegue para valer a pena? Um segmento perfeitamente identificado com duzentas pessoas pode não pagar o custo de o servir. A excepção são os mercados de luxo, onde poucos clientes com margem alta chegam.

Acessível. Chega-se lá? Um segmento que nenhum canal disponível alcança é um segmento teórico. É aqui que muita segmentação bonita morre.

Diferenciável. Reage de maneira diferente dos outros? Se dois segmentos respondem igual à mesma campanha, não vale a pena tratá-los como dois.

Accionável. Há meios para fazer alguma coisa de diferente para ele? Uma empresa pequena pode identificar oito segmentos válidos e só ter capacidade para servir dois bem. Identificar não é servir.

Na análise de um caso, este é o crivo a passar: dizer que a marca X segmenta assim obriga a mostrar que a divisão passa nestes cinco testes. É isso que distingue uma análise de uma descrição, e o documento Regimes de Avaliação pede exactamente essa diferença.

Por onde se começa, e é ao contrário do que parece

O texto de apoio Identifying Market Segments and Targets traz um processo de segmentação por passos, atribuído a Roger Best, e o primeiro passo é o que interessa reter: começa-se pelas necessidades, não pelos dados. Agrupam-se os clientes pelo que procuram ao resolver um problema de consumo, e só depois se pergunta que demografia, estilo de vida e comportamentos é que tornam esse grupo identificável na prática.

A ordem importa, e é ao contrário do que quase toda a gente faz. A maneira comum é abrir a base de dados, ver que há idade e código postal, e segmentar por aí — o que dá segmentos identificáveis mas sem relação com o que as pessoas querem. A ordem correcta produz segmentos que explicam comportamento, e só depois procura a forma de lhes chegar.

Os passos seguintes avaliam se o segmento vale a pena — atractividade e rentabilidade — e só no fim se define a proposta de valor e se estende a decisão a todo o marketing mix. Repara que o processo acaba exactamente onde a sequência dos sete passos da primeira metade da aula acaba: no mix.

Como se mede se um segmento vale a pena

Para avaliar a atractividade de um segmento, esse mesmo texto de apoio manda buscar as cinco forças de Porter: concorrentes do sector, potenciais entrantes, substitutos, poder dos compradores e poder dos fornecedores. Um segmento é pouco atractivo quando já tem concorrentes fortes e agressivos, quando é fácil alguém entrar, quando há substitutos que limitam o preço que se pode praticar, ou quando compradores e fornecedores têm poder para espremer a margem.

Vale a pena reter isto por duas razões. A primeira é prática: afirmar numa apresentação que um segmento é atractivo passa a ter grelha para se fundamentar. A segunda é que este modelo é matéria de Estratégia Empresarial, disciplina do mesmo trimestre — e usar numa disciplina o que se aprendeu noutra é exactamente o tipo de coisa que distingue um trabalho.

Os erros que se repetem

Três, e aparecem quase sempre juntos.

Segmentar pelos dados que se tem. A empresa tem idade e código postal na base de dados, portanto segmenta por idade e código postal. A pergunta certa não é que dados existem, é que diferenças explicam o comportamento.

Confundir descrever com segmentar. Dizer que os clientes são 60% mulheres entre os 25 e os 40 é uma descrição da base de clientes actual. Segmentar é decidir a quem a empresa se vai dirigir, o que pode incluir gente que ainda não lhe compra.

Fazer segmentos que ninguém consegue usar. Um segmento tem de chegar à pessoa que vai desenhar o produto, escrever o anúncio e escolher o canal, e essa pessoa tem de perceber o que fazer com ele. Se o segmento é um número num relatório, não é um segmento.

Onde isto continua

Segmentar não decide nada sozinho. Divide o mercado, e depois é preciso escolher, o que é o targeting. Escolhido o alvo, é preciso definir que lugar se quer ocupar na cabeça dele, o que é o posicionamento. Os três formam a sequência apresentada logo ao início da segunda metade da aula.

Na sessão 1 foi dada a segmentação. Targeting e posicionamento ficaram para a sessão 2, com o caso Nespresso como preparação obrigatória. Vale a pena ler esse caso já com esta grelha na cabeça: a Nespresso é um exemplo de manual de segmentação por benefício, e a pergunta a fazer ao lê-lo é qual dos cinco testes acima é que a divisão dela passa melhor.

Segmentação aplicada: sete perfis e quatro marcas

Os sete perfis dão vocabulário para nomear um alvo. Os quatro mini-casos mostram quatro famílias de variáveis em acção, e servem de ensaio para escolher o caso do trabalho.

Sete perfis para nomear um alvo

Os slides Desenvolvimento da Estratégia de Marketing fecham a segmentação com um quadro da Euromonitor International, de 2024, que é segmentação psicográfica pura: sete motivações, sete formas de chegar a cada uma.

Perfil O que o move
Brand Champions Lealdade e estatuto
Wellness Enthusiasts Saúde e bem-estar
Connected Shoppers Conveniência digital
Changemakers Valores e impacto
Experience Seekers Experiências reais
Trendsetters Novidade e inovação
Budgeteers Qualidade ao preço certo

O valor disto para o trabalho de grupo é directo: dá vocabulário para nomear a quem a marca se dirige, em vez do costumeiro “jovens urbanos”.

Duas cautelas ao usá-lo, que valem tanto como o quadro. A primeira é que estes perfis são motivações, não pessoas: a mesma pessoa é Budgeteer no supermercado e Experience Seeker nas férias. O que se segmenta é a ocasião de compra, não o indivíduo. A segunda é que um quadro genérico como este nunca substitui olhar para o mercado concreto: serve para dar nome ao que se encontra, não para dispensar de o encontrar.

A mesma ferramenta em quatro marcas

Os Mini-Case Studies STP mostram segmentação aplicada, e cada um usa uma família de variáveis diferente. É por isso que vêm juntos: o exercício não é decorar as variáveis, é reconhecer qual está a ser usada.

  • A Coca-Cola, com a campanha dos nomes nas garrafas, segmenta por comportamento e identidade pessoal, não por demografia. Repara no mecanismo: o produto não mudou, mudou a relação com ele.
  • A Nike, ao entrar a sério no mercado feminino, faz segmentação demográfica, com produto e comunicação próprios. É o caso mais clássico dos quatro e o mais fácil de defender numa apresentação.
  • A Apple, com escalões de iPhone, segmenta por disposição a pagar dentro da mesma marca. Isto chama-se segmentação de preço, e é interessante porque o risco é conhecido: escalões a mais canibalizam-se uns aos outros.
  • A Amazon, com o Prime, segmenta por frequência de compra e lealdade, que são variáveis comportamentais. É também o único dos quatro em que o cliente se auto-selecciona ao subscrever, o que é a forma mais barata de segmentar que existe.

Como ler isto com a grelha da aula

Aplicando os cinco testes do bloco anterior a estes quatro casos, percebe-se porque é que funcionam. Todos são mensuráveis, todos são grandes que chegue, e em todos a empresa tinha meios para fazer algo de diferente para o segmento que escolheu, que é o teste em que a maioria das segmentações bonitas falha.

É esse o exercício a levar para o caso do trabalho. Escolhida a marca, a pergunta é qual das quatro famílias de variáveis ela usa, e depois se a divisão passa nos cinco testes. Responder às duas coisas com factos dá a análise que o professor pede, e não a descrição que ele explicitamente exclui.